Discurso como Paraninfo da turma de jornalismo 2014 – Ufac

[sgmb id=”1″]Fala proferida na cerimônia de Colação de Grau da Universidade Federal do Acre (Ufac) realizada em 17/12/2014. Retirei apenas os cumprimentos iniciais do texto que se segue

Discurso

É com muita satisfação que recebi e prontamente aceitei o convite para ser Paraninfo desta competente turma que hoje completa sua jornada no curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Acre. Vos congratulo pela conquista, assim como a dos alunos de outros cursos aqui presentes que também encerram um ciclo em suas caminhadas de vida.

Um dia especial para todos que aqui se encontram, a celebração de uma vitória, a conclusão de uma etapa importante na jornada profissional e pessoal de cada um. A vocês a sociedade deu a oportunidade de ocupar um precioso banco em uma Universidade Pública Federal e agora que sairão formados, espera sua retribuição.

Muitos conseguiram chegar até aqui com imenso sacrifício, dedicação e lutas diárias, deixando de estar presentes com pais, filhos, esposas ou maridos;  mas com um objetivo de vida: o de concluir um curso superior em uma Instituição de excelência como é a Ufac, que hoje assume esse papel protagonista junto a outras Institiuções de Ensino na região Norte do Brasil na produção de conhecimento e pesquisa com imenso potencial no futuro que se avizinha.

Você que agora é um profissional será o elo entre a Universidade e a comunidade a qual está inserido, é a semente que cada professor tentou cultivar e que precisa brotar para dar frutos, é o que espera a sociedade de ti. Multiplicar o conhecimento, melhorar as práticas trabalhistas, lutar por uma sociedade mais justa, buscar colocar em prática aquilo que aqui pôde aprender, são os caminhos para o sucesso em vossa jornada desde que seja persistente e não desista. Muitos tentarão atrapalhar seu ofício, mas são as pedras no caminho que farão seu trabalho brilhar, saiba usar a tempestade a seu favor e encontrará um ponto de equilíbrio.

Acredite, és um privilegiado.  Poucos conseguem vencer este degrau em um país marcado pela exclusão social. Uma herança bruta de um passado colonial onde ocupação latifundiária e trabalho escravo caminharam juntos com Igreja e Estado na formação de uma economia de concentração de riqueza e exploração de mão-de-obra forçada. Fomos o último país do mundo a abolir formalmente a escravidão mantendo-se os privilégios e as violências raciais. Em 2013 ainda tínhamos mais de 290 mil pessoas trabalhando em situação análoga à escravidão segundo números da organização internacional Walk Free Foundation no seu relatório The Global Slavery Index. Recentemente operações do Ministério do Trabalho libertaram quase 100 pessoas nessa condição no Acre.

Enquanto os negros (falamos de pretos e pardos) compunham quase 51% da população nacional em 2010 de acordo com o Censo, ocupavam apenas 26% das cadeiras no Ensino Superior em idade escolar de 18 a 24 anos, ao passo que brancos eram 47% do total populacional e garantiam 31% de ocupação das vagas, o que incide também nas diferenças salariais, onde brancos recebem em média quase o dobro de negros. Quadro que começa a mudar com a implantação do ingresso na Universidade por meio de cotas raciais e também outras ações afirmativas de cor, raça e etnia que vem sendo implementadas.  Importante passo no caminho de um país mais justo e com maior distribuição de renda.

Vivemos o maior período democrático em nossa história, com quase trinta anos do fim de um tempo obscuro, a Ditadura Militar, e hoje temos nosso passado revisitado com o relatório da Comissão Nacional da Verdade recém entregue à Presidência da República, que por dois anos entrevistou militares, testemunhas  e militantes torturados nos porões do regime. História que precisa ser contada e recontada nos livros didáticos, ensinada diariamente para que nunca mais se repita.

Somos campeões em violência, em 2012 foi relatado o maior número de homicídios e a taxa mais alta de assassinatos no Brasil desde o ano de 1980. Números que são acrescidos da violência policial em uma guerra sem fim, militarizada, estatizada. Enquanto se tratar um cidadão como inimigo a tudo se justifica a violência contra ele, mesmo a retirada de sua vida, amparada pelos famigerados “autos de resistência”, resquício da Ditadura que permitem e acobertam homicídios policiais. Só em 2011 no Rio de Janeiro e em São Paulo, 42% dos assassinados foram registrados como autos de resistência. Dos 12 mil registrados no Rio, 60% se tratavam de execuções.

Quem mais tomba pela violência são os que tem a pele escura, inocentes, criminosos e policiais. Estamos falando de um verdadeiro genocídio da população jovem negra. Dados do Mapa da Violência de 2012 mostram que 89 jovens negros de 20 anos morrem a cada 100 mil habitantes contra 37 brancos na mesma idade, pena de morte principalmente justificada pela falida guerra às drogas que na verdade é uma guerra aos pobres. Toda vez que ouvir a palavra guerra, desconfie, sua justificativa é sempre obscura e inaceitável pois resultará sempre em mortes e sangue.

O Acre é hoje o Estado que mais encarcera proporcionalmente no país, com quase 600 presos por 100 mil habitantes, um número assustador se o relacionar com outros países. Seríamos o quarto maior encarcerador do mundo atrás de Estados Unidos, China e Rússia se fossemos um país. Onde cabem pouco mais de 2400 pessoas estão presas mais de 4300 segundo relatório de junho de 2014 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), um déficit de quase 2 mil vagas proporcionada por políticas públicas de segurança baseadas no encarceramento em massa, gerando superlotações e condições desumanas.

Mais prisões demandam mais presídios, mais policiais, mais fardas, viaturas, equipamentos, armas, mais orçamento e gastos, sempre! Um negócio imensamente lucrativo onde alguns ganham com o sangue quotidiano e a sociedade como um todo sempre perde, pois a violência só cresce.

Quanto mais  se gasta em repressão menos se gasta em educação e prevenção, onde mais se constroem  presídios menos e mais precárias serão as escolas. É a punição violenta do estado com a privação de liberdade para punir a violência das ruas. E onde se substitui as ações do Estado por repressão e encarceramento há de se esperar mais violência. Os índices de homicídio no Acre continuaram a subir desde 2008 até 2012 segundo levantamento do 7º Forum Nacional de Segurança Pública.

Se durante a escravidão o cativeiro era formado somente por negros, hoje correspondem a 60% dos encarcerados nas penitenciárias nacionais. Nossas prisões são um novo navio negreiro e a sociedade precisa saber disso. Não se pode ter justiça e paz enquanto o racismo e a violência do estado contra essas populações persistir.

Quando se trata de jornalismo, há de se falar do jornalismo policial nos moldes de apresentadores que vibram com a bestialidade doméstica em todos os estados do Brasil. Esse tipo de ‘profissional’ que incita a violência policial, desmerece as políticas de Direitos Humanos e proporciona uma barbárie televisiva na busca ensandecida por audiência, mantém sob o manto do medo a população periférica, justificando a aplicação da força nessas regiões. É na periferia que essa violência ocorre e recebe os refletores e câmeras. São corpos de negros e pobres exibidos diariamente em nossa TV aberta como troféus de uma política insana.

É preciso que os jornalistas se oponham à essa ânsia por audiência em prol de informações relevantes e delimitem sua atuação profissional não pelo mercado mas ajudando a molda-lo. O que se espera de um jornalista aqui formado hoje é que trate com respeito a vida e trabalhe seguindo os princípios éticos da profissão. Que se posicione sempre ao lado do oprimido e não do opressor.

Esta turma que se forma em Comunicação Social sai preparada para trabalhar em todos os âmbitos da profissão, orgulhosamente entregamos ao povo do Acre profissionais gabaritados para cumprir seu papel perante a sociedade que agora os recebe. É com esses alunos que começa a nascer uma nova mentalidade no jornalismo acreano, na busca do trabalho com jornalismo de dados, não mais agora sustentado por apenas argumentos, mas com números. Dados que serão o futuro da profissão. Não se paga mais pela informação, mas sim pelo conhecimento. Estão aptos a utilizar informações de pesquisa e dados estatísticos em suas matérias, ajudando a sociedade a fiscalizar o ente público. A transparência deve ser meta de toda democracia e o jornalista agente desta mudança de pensamento.

Novamente congratulo os profissionais aqui formados hoje, esperando que  continuem acreditando em vossas opiniões e na capacidade de mudar o meio em que vivem. Tenha fé no que quiser mas não se prenda às armadilhas dos dogmas, para a ciência não existem verdades absolutas e sim verdades científicas. Ame seu irmão e faça com o próximo aquilo que espera que façam contigo, a intolerância de qualquer tipo é um dos males da humanidade. Seja justo e tenha bom senso, aprenda a usar as palavras obrigado e me desculpe se já não o saiba. Humildade e perserverança serão sempre percursos que o levará a lugares e realidades que busca para si. Saber conviver com a diferença e dela subtrair conhecimentos é mister para a sabedoria e o bom viver.

Faço votos que continue seus estudos e que busque sempre aprender cada vez mais nesta infinita caminhada pelo saber que é a passagem por este planeta.

Parabéns pela conquista!

Muito obrigado a todos os presentes. Boa noite.

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